Você sabe contratar um profissional de comunicação?

Esse é o primeiro artigo do blog e confesso que não estava certa se começar falando sobre esse assunto seria a melhor maneira. Afinal, a reflexão que proponho tange diversos problemas: crise, profissão saturada e a desvalorização do profissional de comunicação. Um assunto não muito agradável, convenhamos.

Na verdade, é um pouco desanimador. Com 8 anos de mercado, é a primeira vez que eu vejo boa parte das pessoas fazendo um downgrade em suas carreiras. É claro que sobraria para a acirrada área de comunicação, não é? Afinal, aqui o que não falta é mão de obra.

E assim vamos remando até tudo virar uma nova “marolinha”. Mas eu nem quero conduzir meu texto dentro do aspecto político-econômico, pois eu sei que não há absolutamente nada que eu possa dizer que seja diferente de tudo aquilo que a gente tem discutindo por aí.

O que eu quero fazer aqui é levantar uma reflexão de quem está do outro lado e, com uma dose exagerada de otimismo, atender a um apelo que o Caio, meu ex-orientador, fez nesse belíssimo texto: eu quero ajudar a educar o mercado.

Tá, é muita petulância da minha parte. Quase uma ilusão, eu diria. Mas a cada dia que passa eu realmente acho que as pessoas – ou pior, as pessoas que contratam – não tem muita noção de como contratar um profissional de comunicação e, acima de tudo, sobre o que esperar dele.

Não é difícil encontrar descrições absurdas de vagas por aí e eu realmente não acredito (ou não quero acreditar) que elas existam exclusivamente por um reflexo da crise ou pela tentativa de se obter mais pagando menos.

Eu acredito que nem sempre o profissional que cria a descrição de uma vaga em comunicação tem a devida noção do que se esperar dos candidatos e acaba criando descrições que fogem da realidade.

Além disso, existem aquelas pessoas que, por falta de conhecimento, acreditam que o trabalho do profissional de comunicação seja fácil.

“É só postar nas redes sociais.”
“É só organizar um evento.”
“É só mandar um e-mail.”

E aí juntam todas essas funções “fáceis” em um cargo só.

Mas isso é prejudicial. Para o contratado, é claro, mas também para quem contrata. Por isso, gostaria de levantar alguns pontos. Vamos lá!

Profissão é diferente de cargo

Acredito que relembrar essa diferença, por mais básica que ela pareça ser, é imprescindível para entender o universo da comunicação.

Profissão está estritamente relacionado a uma formação. Já um cargo está ligado às funções e responsabilidades dentro de uma empresa. Eu, por exemplo, sou publicitária por formação, mas ocupo um cargo de analista de marketing.

Houve um tempo em que as oportunidades dentro das empresas eram muito bem definidas. O jornalista trabalhava em editoras, jornais e assessoria de imprensa. O publicitário em agências de publicidade ou departamentos de criação e por aí vai.

Isso tem se tornado cada vez mais incomum. O mercado, devido a diversos fatores, está cada vez mais convergente. Não há nada que impeça um jornalista, por exemplo, de assumir uma vaga que antes era só ocupada por um publicitário.

O que as pessoas precisam ter em mente é que  formação profissional (e isso considere anos de estudo, portfólio, experiência etc.) interfere no que se deve esperar de certos candidatos em um processo seletivo.

Se uma empresa precisa de alguém que crie peças gráficas, layouts e afins, por exemplo, o mais natural é que essa posição seja ocupada por um designer, uma vez que a formação dele, em teoria, o deixa mais próximo às atribuições do cargo.

Mas é possível que um publicitário ou jornalista ocupe essa mesma posição. Afinal, o que importa mesmo é o tipo de serviço que o profissional será capaz de prestar.

O problema é quando o inverso acontece, ou seja, quando querem contratar um profissional de uma área, mas esperando um conjunto de competências que só alguém com carreira e conhecimentos sólidos em outras áreas poderiam desempenhar.

Isso tem se tornado comum. Por essa razão, acho importantíssimo que o responsável por contratar alguém de comunicação consiga entender as principais profissões e cargos da área.

“Quem eu preciso contratar?” é uma boa pergunta pergunta inicial para se adquirir esse entendimento.

Profissional especialista, generalista, com muitas atribuições ou sobrecarregado?

Em um universo tão amplo como a comunicação, é comum ver profissionais especializados em determinados assuntos.

Hoje em dia tem especialista em SEO, conteúdo, UX e mais uma infinidade de opções. Por isso, se uma empresa possui em certo tipo de demanda em volume considerável, provavelmente um especialista pode ser a melhor opção de contratação.

Outra necessidade comum em algumas empresas é de um profissional que saiba um pouco de tudo, seja para coordenar profissionais e subsetores ou para executar demandas menos constantes.

Eu trouxe um exemplo, para me tornar mais clara:

Essa vaga precisa ser preenchida por um profissional que entenda de processos de marketing, mas que também entenda um pouco sobre eventos, ads e comunicação interna. Pela descrição, eu acredito que o contratado fará interface com outros fornecedores e profissionais, mas não executará cada uma das funções.

Ou seja, por mais que esse profissional precise transitar por funções distintas, possivelmente o tempo dispensado em cada tarefa permitirá que ele consiga integrar tudo em sua rotina de trabalho, sem a sensação de sobrecarga.  Ele será responsável por contratar um anúncio, mas, provavelmente, não será a pessoa responsável por criá-lo.

Existem empresas que precisam desse tipo de profissional, por isso é normal que essas vagas existam. O problema é que as coisas estão fugindo do controle e é muito comum que encontremos vagas como essa:

Eu vejo um monte de problemas nessa vaga pois, pelo o que parece, o assistente será o responsável pela execução de cada uma das tarefas listadas.

Possuir um cargo com muitas atribuições é comum, mas ser o responsável final por diversas funções de áreas distintas, ao meu ver, é problemático.

O profissional da imagem acima precisaria dominar ferramentas de design, web design, programação e mídias sociais para conseguir executar em tempo hábil todas as atribuições do cargo.

Assim como o Caio, eu duvido que exista essa pessoa. Ter noção ou conhecimento sobre todas as áreas é uma coisa, agora conseguir executar todas as funções, como um profissional específico para determinada função, é outra história.

Tá, eu não gosto de generalizar! Tudo bem que alguém tenha conseguido se transformar nesse super sayajin do marketing, mas, dependendo do número de tarefas, vai faltar tempo para executar todas essas funções.

É esse um dos grandes problemas do mercado.

Ao meu ver, quem está contratado precisa entender se a vaga descrita se refere a uma função com muitas responsabilidades ou se é, de fato, uma posição que vai sobrecarregar o profissional, delegando a ele responsabilidades que fogem das competências do cargo.

Então, a minha sugestão para o desenho de uma oportunidade dentro da área de comunicação seria:

  1. Pensar nas responsabilidades da vaga.
  2. Pensar nas atribuições da vaga
  3. Pensar no volume e na frequência das tarefas.

As respostas para essas perguntas ajudam a entender se um profissional apenas será capaz de executar todas as funções.

Requisitos e diferenciais

Sei requisitos e diferenciais de uma vaga variam conforme as empresas e as suas necessidades. Mas, meu apelo aqui é que esses fatores sejam coerentes e humanos.

Se existe uma posição aberta para um redator web, por exemplo, e um dos requisitos seja conhecimento avançado em Photoshop, tem algo erradíssimo aí.

Infelizmente, isso tem se tornado comum.

Quer outro exemplo clássico? O famoso requisito de experiência para estagiário. E olha que quem escreve esse artigo acredita que é possível, sim, um estudante universitário ter adquirido certa experiência antes mesmo de ter conseguido uma contratação formal. Afinal, talvez ele tenha:

  • trabalhado em uma agência experimental ou em uma empresa júnior na faculdade;
  • trabalhado informalmente;
  • feito algum trabalho voluntário ou projeto pessoal;
  • ou, até mesmo, estagiado em outra empresa.

Todas essas maneiras são caminhos para se adquirir experiência e que validam, de certa forma, esse tipo de atributo em uma vaga de estágio. Mas isso não precisa ser uma exigência. Talvez, se muito, um diferencial.

Eu entendo que requisitos são maneiras eficientes de atrair um perfil desejado, mas eles podem e devem ser justos.

Não me parece coerente tirar de um estudante a oportunidade de concorrer a uma vaga de estágio só porque ele não tem experiência, ou tirar de alguém que não fala inglês fluente a oportunidade de concorrer a uma posição na qual apenas o conhecimento intermediário da língua seja suficiente.

Filtros realmente são necessários. Isso é um fato, mas por que não trabalharmos para que eles sejam mais justos?

Nível de experiência faz diferença?

Se tem uma coisa que comunicação faz é ensinar. Na fase que estou, eu tenho aprendido, pelo menos, cinco coisas novas por dia. Por isso acredito que a tendência é que o profissional de comunicação carregue mais conhecimento, à medida que ele adquire experiência.

Claro que o que direi agora não é uma regra, mas não tem como fugir de alguns fatos.

Tem cargo mais indicado para profissionais mais experientes.

Tem cargo mais indicado para profissionais em início de carreira.

Tem cargo mais indicado para estudantes.

Em tese, o mercado comportaria todos, mas não é isso que a gente vê na prática. E dá para perceber isso na vaga abaixo:

A vaga em questão tange todos os pontos que citei ao longo do texto, por isso, nem vou me estender. O que eu quero falar é que, ao contrário do que se imagina, a empresa também perde ao colocar um estagiário que precise atender a exigências de um profissional júnior.

Estamos falando um estudante em fase de intenso aprendizado. Tem faculdade e um mundo de coisas novas para serem processadas. Dificilmente esse estagiário conseguirá exercer todas as tarefas da melhor maneira possível. É uma mão de obra mais barata, é verdade. Mas esse barato pode sair caro, para ambos os lados, mesmo que o estagiário tenha a oportunidade de aprender um pouquinho de tudo.

O mesmo raciocínio se aplica aos outros níveis de experiência. É muito comum encontrar vagas que seriam ideais para profissionais com anos e anos de experiência e com mais habilidades técnicas, mas que pagam salário que deveria ser pago para profissionais em início de carreira.

Eu não julgo as pessoas que aceitam, afinal, a maré não está para peixe e muitas pessoas só estão em busca de uma oportunidade.

Mas não dá para fechar meus olhos para isso.

Se uma empresa só tem verba para investir em mão de obra mais barata, o que custa fazer menos exigências e dar a oportunidade para o profissional se desenvolver a partir daí?

Eu sei a resposta para essa pergunta. Ela, na maioria das vezes, é óbvia e cruel. Mas não custa nada tentar colher alguma coisa boa a partir da reflexão que proponho com ela, não é?

Por fim, entendimento é tudo!

Já li diversos depoimentos de profissionais de comunicação que passaram por processos seletivos bagunçados ou que sentiram que o entrevistador não tinha muita ideia do que estava perguntando. Quer dizer que o recrutador precisa saber questões técnicas para contratar alguém para trabalhar com isso? Não necessariamente, mas creio que ele precise encontrar maneiras justas de compreender o nível de conhecimento de cada um dos candidatos.

Se o contratante tem ciência das necessidades da empresa e das atribuições da vaga, provavelmente ele vai conseguir fazer uma descrição clara e coerente. Com requisitos e diferenciais que realmente façam sentido.

Se o contratante entende o valor da comunicação e do investimento que ele deseja fazer nessa área, provavelmente ele saberá o quanto oferecer de salário. E evitará a famosa “enviar pretensão salarial”, que, infelizmente, na maioria das vezes, fica parecendo um leilão invertido.

E, novamente, se o contratante entende o valor da comunicação, ele valoriza o profissional da área. Infelizmente, não é isso que temos visto por aí. Sei que o mercado é quem dita as regras e a gente dança conforme a música, mas que não percamos o hábito de parar, nem que seja de vez em quando, para falar sobre esse assunto, por mais incômodo que ele seja.

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